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Assunto sério é assunto chato?

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Por Talita Chiodi*

Abrir diálogos sobre assuntos urgentes e sérios e lançar temas delicados e desconfortáveis é, possivelmente, a chave mais crucial da mudança na engrenagem cultural que, silenciosamente, transforma condutas inaceitáveis em imperceptíveis e confundem o habitual com o natural.

No mundo corporativo, a falta de uma comunicação linear, que seja clara, direta e objetiva, pode gerar transtornos para toda a equipe. Há muitas “ciladas” que podem ocorrer e interferir na relação empresa-colaboradores e a influência que o código de conduta que trazemos em nossa bagagem cultural pode impactar nessa relação, mas é possível criar, por meio de “pontes”, que aproximam, interagem e dão leveza para que um assunto sério não se torne chato.

Cilada 1: Despertar a emoção do medo nas pessoas
Lembra quando nossos pais nos chamavam pelo nosso nome completo? Era um código muito claro de que o assunto tinha ficado sério. Na nossa cultura latina, não chamar pelo apelido significa, muitas vezes, uma tragédia conflituosa emergindo. E, em tempos de redes sociais, onde a vida há de ser um misto de calor, de riso fácil, de alegria e de plenitude constantes, conflito nenhum é bem-vindo. O papo sério pode nos colocar em posição de alerta e nossa memória desse estado de alerta muitas vezes está associada ao medo.

Cilada 2: Nosso paradoxo cultural
Se, por um lado, transitamos por essa marca forte de sermos o povo do acolhimento, da receptividade, da dança, da celebração, da festa, dos sabores e das cores, por outro, também carregamos a imagem deste povo que, muitas vezes, passa do limite da brincadeira, que não cumpre horários, tampouco acordos. Nesse dilema entre querer agradar e lutar para não corromper, ficamos no limbo dos acordos que serviriam para mediar e regular as relações humanas, as posturas, as condutas, quer seja no mundo do trabalho, quer seja no mundo íntimo e pessoal. O código não está claro. Como desenhar esse desafiador caminho de ser quem se é, transitar com integridade e transparência, adotando o perfeito balanço entre verdade e gentileza como prática diária, estabelecendo limites claros e também oportunizando aproximação, empatia e diálogo aberto?

Cilada 3: Nossa mania de fragmentar e reduzir
Às vezes, parece que reduzimos a compreensão das coisas da vida, do convívio e do trabalho. Fragmentamos a vida profissional da vida pessoal, traçamos uma linha frágil que separa o formal do informal: ou é gravata ou é chinelo. Ou é reducionista pela linguagem: rebuscada ou de baixo calão. E colocamos os assuntos em caixas de (1) bobagens superficiais ou (2) formalidades insuportáveis. Claro que a bobagem superficial ficou para os almoços de família e encontros inevitáveis de café e elevador, e os assuntos importantes, formais e insuportáveis, ficaram para o mundo corporativo e para resoluções de testamentos. Entre esses dois mundos não há um vale de desconexão, mas há uma ponte sólida de possibilidades múltiplas. Há de se envidar esforços para reconectar, tecer e ampliar nosso olhar e enxergar de maneira mais sistêmica e menos fragmentada.

Detectadas as ciladas, o próximo passo é encontrar o caminho de como tornar possível abordar um assunto sério sem torná-lo um assunto chato. Será que basta colocar um chinelo, lançar uns palavrões, oferecer uma cerveja e estará tudo mais leve? Não parece ser bem isso o que modifica a densidade da conversa e faz florescer a leveza.

Entre a linguagem formal e a informal, construa a ponte acessível
Simples, direta e transparente. Nem palavrão, nem jargão técnico. Saber usar recursos da simplicidade requer muita sabedoria e sofisticação intelectual. Bem como saber sintetizar e estruturar sua fala. É ter a gentileza de conduzir o público por uma linha intrigante e curiosa, fácil de compreender, acompanhar e registrar, e digna para alcançar a todos presentes com respeito.

Entre o dever burocrático e o lazer prazeroso, construa a ponte da legitimidade
Sem contornos, nem exageros. Não precisa trazer para seu evento a estrela do momento, nem fazer barulho para chamar atenção. Siga pela trilha da legitimidade, porque se tem algo em que nós, humanos, somos habilidosos e bem treinados é saber distinguir o legítimo do não legítimo, o autêntico do falso, a verdade da mentira. Então, dedique tempo para buscar pessoas que falam de forma genuína, verdadeira, presente e legítima, e mantenha-se atento para se conduzir por este caminho também.

Entre o assunto muito técnico e complexo e o muito delicado e exigente, construa a ponte da confiança
Confiança não é algo que possa ser forçado. No máximo, pode-se cultivar o campo para que ela – eventualmente – floresça, mas, jamais, uma estratégia para manipular que ela surja a qualquer custo. É preciso confiar que o outro vai dar conta, que o outro é suficientemente capaz de entrar em contato com os assuntos, por mais delicados que sejam. É confiar na força e na capacidade do coletivo, de que o grupo dá conta do que é bom que emerja. É fazer integralmente sua parte para criar um ambiente seguro e entregar-se ao fluxo em ato de confiança. Saber dosar o momento de fazer tudo que está a seu alcance, e o momento de relaxar, aproveitar e deixar fluir.

Entre o mundo técnico e o dos abraçadores de árvores, construa a ponte da conexão
A conexão acontece quando a humanidade nos aproxima. Não adianta ser a pessoa que mais entende daquele assunto no planeta se não souber transmitir seus conhecimentos, nem souber se conectar com sua audiência. Nem tão pouco adianta ser uma pessoa amorosa e gentil, se não conseguir comunicar e transmitir sua mensagem. Há uma ponte de conexão que, geralmente, é consolidada quando vemos, simultaneamente, o especialista e o ser humano, ambos presentes e atuantes naquela narrativa. Permita-se compartilhar seus desafios e angústias em relação ao tema exposto. Além de ser um ato de humildade, é também um ato de coragem transitar por esta vulnerabilidade.

Entre a realização e a passividade, construa a ponte do engajamento
Apesar de reconhecermos a importância de atividades interativas, dos jogos e das dinâmicas, não é só este o caminho para o engajamento. Não significa oferecer um lugar de ouvinte passivo, onde deverão ficar imóveis e atentos ao conteúdo durante longos períodos, como em muitas palestras e treinamentos. É pensar na jornada da experiência do seu público: como criar uma experiência mobilizadora, que gere apropriação, reflexão, senso de pertencimento e potência de intervenção. Chamamos isso de engajamento ativo. Abra espaço para participação, atitude, contribuição e agregação, confie na potência do acaso, do incontrolável, do que só pode surgir no grupo e pelo grupo.

Não é porque estamos acostumados com algo, que podemos afirmar que este algo é bom e é justo. Somos seres adaptáveis, com capacidade para elaborar e criar cenários saudáveis e potentes, capazes de alcançar uma sinergia plena entre a empresa e seus colaboradores.

*Talita Chiodi é fundadora da startup Lab.vi

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