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O adulto de amanhã se constrói no jovem de hoje

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Por Simone Rezende*

Estou à frente da gestão de uma ONG localizada na região da subprefeitura mais carente de São Paulo – Parelheiros. Atuo nesta área do terceiro setor há vários anos, além da experiência que possuo como psicóloga e, naturalmente, tenho absoluta noção de que lidar com jovens da periferia (e mesmo os que residem em locais mais favorecidos) não é fácil!

Nossa juventude parece ter perdido a noção de respeito, de perspectiva futura. Percebemos que querem deixar, na sua maioria, o tempo passar sem se preocupar em estudar mais, em trabalhar em empresas melhores e em progredir. Parecem querer obter conquistas sem esforços. Como se isto fosse possível!

Sem dúvida, um sistema educacional pouco motivador e a mercê da política oportunista de quem está no poder, que ora defende a progressão continuada, ora acredita que a repetência é o melhor caminho para avaliar as turmas, desestimula muitos jovens ao estudo. Além disso, vemos horários impróprios, escolas longe das moradias, professores mal remunerados e pouco motivados, instalações inadequadas e toda ordem de adversidades que também contribuem para que os jovens fiquem longe das salas de aula ou, se as frequentam, não buscam efetivamente adquirir o conhecimento que precisam para se tornarem profissionais de sucesso.

Para reverter de forma decisiva tal estado de mazelas, acredito nos sistemas de aprendizagem, nos quais o trabalhador de pouca idade, sujeito a um mundo de restrições, tem oportunidade de ingressar em uma organização na condição de Jovem Aprendiz e lá descobre novas chances e motivações para seu desenvolvimento técnico e pessoal.

Trata-se do aprendizado na prática, em todos os sentidos. Na vida profissional e pessoal, o jovem sofrerá uma carga positiva de novos valores, desafios e crescimento. Não é a teoria que os bancos escolares propiciam e que, sem dúvida tem seu valor, mas, que também se afastou da realidade dos jovens com técnicas e didáticas ultrapassadas diante do dinamismo da era da informática e dos recursos tecnológicos.

Nossas escolas tratam as matérias da mesma forma que nossos pais estudaram e, no máximo, a lousa de giz foi substituída pelo quadro com pincel atômico. Mas isso não é nada em comparação com as vantagens que a revolução cibernética poderia trazer e que muitas escolas particulares já incorporaram. Certamente, o problema não é orçamentário e sim de competência da gestão.

Por tudo isso, os programas de aprendizagem são a melhor novidade que surgiu. Independentemente de ser lei, de as empresas serem obrigadas a suprir de 5% a 15% dos seus cargos que demandam qualificação técnica com jovens aprendizes, estamos diante de uma rara ocasião em que o jovem é exposto a um desafio motivador, inserido em um ambiente vocacionado para o crescimento e para a valorização das pessoas dentro da dinâmica empresarial de retenção e diferenciação dos talentos.

Troca-se, pelo menos em parte do dia, enquanto o jovem está atuando na empresa, o aprendizado carrancudo e monótono das aulas tradicionais pela vibração e energia do contexto corporativo, inserindo o recém-egresso no universo do trabalho nesta ciranda que, para muitos pode ser louca, mas, bem sabemos que é nela que se formam e progridem, verdadeiramente, os melhores profissionais.

Muitos empresários aderem aos programas de aprendizado porque são visitados pelos fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego e, assim, firmam termos de ajustamento de conduta, trazendo para suas empresas jovens que, em sua maioria, estavam sem perspectivas condenados ao submundo das drogas e dos crimes. Dessa forma, conclamo os dirigentes de empresas a se anteciparem à lei e contratarem jovens aprendizes.

Tenho a convicção de que só assim estaremos garantindo um futuro melhor para a nossa sociedade, construindo o adulto de amanhã, investindo no aprendizado do jovem de hoje.

*Simone Rezende é gerente institucional da Associação Beneficente Vivenda da Criança.

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