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Por dentro do cérebro procrastinador

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Por Ana Souza*

Você sabe o que significa o termo procrastinação? Muitas pessoas não conhecem o significado dessa palavra, mas, com certeza, já vivenciaram o fenômeno em seu dia a dia. A procrastinação é o termo técnico utilizado para descrever o famoso “depois eu faço”. Isso mesmo, é aquele comportamento clássico que adotamos quando temos uma tarefa árdua (normalmente pouco prazerosa e interessante) para executar, mas ao invés de resolver logo a questão, vamos empurrando até que não seja mais possível adiar.

Vou dar um exemplo corriqueiro, mas que ajuda a ilustrar bem o ciclo da procrastinação. Estamos no começo da semana e temos um relatório imenso para finalizar até o início da semana seguinte. Ou seja, temos, em média, sete dias inteiros para fazer o trabalho com calma e foco. Mas, como ainda falta muito, vamos preenchendo os dias e horas com outras atividades, menos importantes, mas certamente mais agradáveis. Finalmente, sentamos para trabalhar no relatório, mas antes, é fundamental pegar uma xícara de café e, se possível, sair para comprar um biscoitinho ou chocolate. No retorno, fazemos uma ligação, trocamos uma ideia com um colega de trabalho, checamos as redes sociais e quando retornamos para o relatório, já está quase na hora de ir embora. Então, já que não vai dar tempo mesmo de ser produtivo, deixamos para o dia seguinte. E o ciclo recomeça, até a véspera, quando não é mais possível adiar e, só nos resta passar a madrugada trabalhando na tarefa.

Trabalhar sob pressão dificulta nossa capacidade cognitiva e atencional.

Parece engraçado, mas, na prática, a procrastinação traz diversos malefícios para nossa vida pessoal e profissional. Além da sobrecarga, de ter que dar conta do trabalho todo em um curto espaço de tempo, a pressão do prazo gera muita ansiedade e estresse. Já sabemos que, em altas doses, esses efeitos podem inclusive trazer sérios problemas a saúde. Além disso, trabalhar sob pressão dificulta nossa capacidade cognitiva e atencional, fazendo com que a chance de erros seja maior. Resumindo, deixar tudo para a última hora não é uma boa estratégia!

Embora todos nós já tenhamos vivido alguma experiência semelhante à descrita anteriormente, os estudos indicam que algumas pessoas tendem a procrastinar mais do que outras. Ainda não está completamente elucidado, mas fatores genéticos e ambientais influenciam na construção de traços de personalidade que favorecem o comportamento procrastinador. Indivíduos mais impulsivos, com menor capacidade de autocontrole e gerenciamento de suas emoções tendem a ser mais procrastinadores.

Mas o que a neurociência tem a dizer a respeito do funcionamento cerebral envolvido no comportamento da procrastinação?

Uma pesquisa internacional recente trouxe importante contribuição para o entendimento das bases biológicas desse fenômeno. No estudo, foram investigadas mais de 260 pessoas, homens e mulheres, a partir da ressonância magnética funcional, no qual diferentes regiões do cérebro e suas conexões foram avaliadas. Os resultados mostraram um possível papel da amígdala, região do cérebro com participação fundamental no processamento das emoções. Essa região mostrou-se maior naqueles participantes considerados procrastinadores.

Pesquisadores acreditam que seria possível treinar o cérebro para adotar novos comportamentos.

Além disso, nesses mesmos indivíduos, também foi observada uma menor conexão entre a amígdala e a parte dorsal do córtex cingulado anterior (dACC), região cerebral importante para a análise e seleção dos comportamentos que serão executados. Tanto a amígdala quanto o dACC são regiões que estão associadas à nossa capacidade de autocontrole, de maneira que conexões mais fracas entre essas regiões podem diminuir nossa habilidade de filtrar emoções e estímulos distratores (internos ou externos), resultando em uma baixa eficiência na regulação do nosso comportamento.

A pergunta que surge é se seria possível evitar ou ajudar o indivíduo a ser menos procrastinador. Embora ainda sejam necessários mais estudos para aprofundar a questão, os pesquisadores acreditam que seria possível treinar o cérebro para adotar novos comportamentos. Já sabemos hoje que o cérebro possui a capacidade de se modificar, criando novas conexões a partir das experiências. A chamada neuroplasticidade permite que comportamentos e hábitos indesejados possam ser modificados, com algum tempo e dedicação.

A neurociência nos ajuda a compreender as bases do nosso comportamento e dessa forma, criar estratégias mais eficientes para melhorar aspectos importantes que influenciam em nossa rotina.

Ana Souza_br2

*Ana Souza é professora de Neurociência do Consumo na ESPM e de Neuromarketing na FGV e sócia das empresas Forebrain e Nêmesis

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