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Surfista de maremoto

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Por Olavo Furtado*

 

Sempre invejei os surfistas. Quando eu era menor me lembro de estar no calçadão da praia e ao ser apresentado a um típico surfista, perguntei o que ele achava de fazer surf. Fui rispidamente corrigido, como se minha escolha verbal tivesse ofendido Poseidon. Na realidade surf não se faz, se pratica. Descobri, então, que surf era um esporte como todos os outros e que deveria ter uma deferência específica. Não se pratica capoeira, mas sim se joga capoeira.

 

No mundo corporativo também é assim. Não estou falando de alcunhas ou apostos que nos fazem sair do pacote como se fossemos a única bolacha do mundo diante de uma legião de famintos! Estou dizendo que no mundo corporativo também surfamos e precisamos saber as regras.

 

É chover no molhado dizer que o mundo está cada vez mais complexo. Política, econômica, tecnológica, socialmente, este mundão está virado em todos os sentidos. Há uma sensação de mudança na raiz, mudança que ninguém sabe direito o que é ou para onde vai. Na família, na relação entre as pessoas, no sexo, no trabalho, nas empresas, no meio ambiente, no pãozinho da padaria.

 

Nas empresas e no mercado de trabalho é a mesma coisa. Estamos em um período de grandes dúvidas sem grandes respostas. Algumas verdades ditas ontem não agüentam alguns minutos nesta panela em ebulição. Algumas teses simplesmente viram espuma e, com elas, seus irremediáveis gurus. Sempre digo aos executivos que me procuram que tenho pânico de ser referência. Já escrevi que ser referência hoje pode ser propaganda enganosa. Quando me procuram, seja pessoa jurídica ou física, com a famosa pergunta “qual o caminho para o sucesso?” não tenho como dizer: não sei, volte depois. As pessoas querem respostas, os jornalistas e as empresas também. E se você estudou muito ou tem larga experiência de mercado ou ambas tem quase como obrigação não apenas responder, mas dar a resposta absolutamente certa. Mas o mundo infelizmente não é um programa de auditório. Hoje, o mundo é um tsunami.

 

Depois da tragédia asiática, difícil alguém não saber o que é um maremoto. Fico imaginando o epicentro de um terremoto no mar. As ondas devem ser gigantescas, caóticas, indo para lá e para cá como chicotes enlouquecidos, estalando e batendo entre si. A fúria da natureza no seu sentido mais avassalador. Pois bem, imagine-se com um calção de banho e uma prancha atada ao seu tornozelo e tendo que pegar ondas neste cenário. Como proceder? Primeiro, seu foco não pode ser entender a lógica das ondas. Não há o que entender, não há marola que vai se tornar uma onda previsível. Lembre-se: no maremoto, o caos é a lógica. Mas, novamente a pergunta: o que fazer? A resposta é muito simples. Concentre-se em duas coisas: manter a prancha inteira e com você em cima.

 

O mercado de trabalho e o mundo corporativo estão tão caóticos e imprevisíveis que fica praticamente impossível fazer projeções sem uma margem de erro considerável. Qual deve ser o foco? Se você é um executivo ou um profissional sua prancha é seu currículo, o que você pendura em cima dele é importantíssimo para manter a prancha rígida e inquebrável diante de um mar raivoso. O mesmo vale para as empresas.Agora não adianta uma super prancha se você não consegue parar em cima. O “manter-se equilibrado” é a capacidade que você e as empresas têm, com ou sem excelentes qualificações técnicas, de ser sensível às mudanças, de compreender o aqui e agora e agir de acordo com isso, de ter a dúvida e ir atrás da resposta mesmo que ela mude no segundo seguinte.

 

Equilibrar-se hoje é muito mais uma variável intangível do que técnica. Portanto, a resposta é muito simples, meu caro executivo ou empreendedor. Não tente compreender as ondas. Foco na prancha e no equilíbrio da decisão. Um maremoto não dura para sempre.

 

 

*Olavo Furtado é professor de Negócios Internacionais da Trevisan Escola de Negócios.

 

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